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17 de abril de 2013

O Amendoal de Ouro


Nasci no mesmo ano em que o meu Avô começava a plantação de um grande amendoal.

Com uma vida preenchida pela Marinha e responsabilidades de estado em Lisboa e no ultramar, no vigor dos seus quase sessenta anos encontrava tempo para o investimento agrícola na sua distante terra natal de Freixo de Espada à Cinta.
Na região do Douro os melhores terrenos são habitualmente reservados para as culturas mais rentáveis, a vinha e também o olival, plantando-se amendoeiras nas zonas mais pobres, pedregosas, secas, longínquas…
E são bem agrestes os montes em Freixo. Para revolver o solo, partir e retirar as pedras de xisto, construir socalcos para que as chuvas não levassem a fina camada de terra, foram utilizadas máquinas, uma inovação naquelas paragens, em final da década de cinquenta.
Anteriormente o meu Avô tinha semeado milhares de amêndoas na melhor horta da quinta, com água abundante e muito próxima de casa. Os muros altos e uma sólida porta de madeira protegiam o viveiro de ventos fortes, coelhos, ovelhas, e curiosos. Logo no início das chuvas as cascas separaram-se pela força dos grãos que começavam a germinar, primeiro lançando uma forte raiz para a terra, depois desenvolvendo o caule e as folhas verde-claro.
Quando as pequenas amendoeiras foram levadas para os montes tiveram que enfrentar os calores destemperados e secos do Verão, e os ventos gelados do Inverno. Em cada ano, com persistência, se substituíam as pequenas árvores que sucumbiam. Os machos puxavam o arado para arrancar giestas e rosmaninhos que cresciam com tanto vigor que encobriam as pequenas árvores.
Pouco a pouco as árvores foram vingando, e quando terminava a escola primária lembro-me da minha professora dizer (seria verdade?) que o amendoal plantado pelo meu Avô era já “o maior da península ibérica”!
Aos dez anos de idade as amendoeiras enchiam-se de flores no Inverno, deixando os montes cobertos de flocos de algodão branco e cor-de-rosa. Começavam os anos de grande produtividade, foi preciso construir um grande armazém para secar e guardar os frutos até serem vendidos. Tenho bem presente esses ruídos da minha infância, o pisar dos amontoados de amêndoa no sobrado de madeira, ou dos ferros nas mãos das mulheres, sentadas no chão à noite, partindo as amêndoas sobre blocos de pedra…
Anos mais tarde, nas férias de Setembro, comecei a acompanhar os ranchos na apanha. Foi o meu primeiro trabalho. Tarefa dura. Os homens à frente varejando as árvores com paus, as mulheres atrás com cestos de vime, dobradas, apanhando as amêndoas caídas, raspando os dedos no chão, subindo e descendo os montes. O calor, o cansaço, a merenda, a água fresca no cântaro, e aquele vislumbre luminoso que nas encostas junto ao Douro se tinha dos reflexos das águas majestosas que deslizavam lentamente lá em baixo…

Com a morte do meu Avô e as voltas da vida e da profissão exigente que exercia em Lisboa, passaram-se demasiados anos sem voltar a Freixo. Sei que as amendoeiras continuaram a florir em cada inverno, muito antes de todas as outras árvores, conceituados fotógrafos captaram as imagens que eu não estava lá para ver, a vila cresceu e desenvolveu-se.
Quando finalmente regressei a Freixo, o grande amendoal plantado pelo meu Avô chegava ao fim.
As amendoeiras vivem em média cinquenta a sessenta anos, podendo chegar aos cem em condições favoráveis, o que não era o caso.
Parece também ser assim o tempo de vida que me está reservado. Hoje com os meus filhos terminando a faculdade, penso nos netos que hão-de vir. Com o país profundamente abalado por uma crise económica, a humanidade avançando por trilhos social e ambientalmente insustentáveis, questiono o legado que lhes deixamos.
Mas de tudo o que ainda penso ter forças para levar a cabo, os projetos que aguardam oportunidade para serem realizados, as ideias que gostaria de partilhar, nada me convoca de forma tão intensa, nada é tão claro para mim agora como este chamamento da terra:
- Está na hora de plantar o Amendoal!

E é por isso que todos os meses eu e o meu marido interrompemos o nosso trabalho em Lisboa para viajar até ao Norte e, nas pequenas propriedades sobre o Douro herdadas dos meus Avós, limpamos o monte, reconstruímos muros, estudamos com carinho as diferentes variedades de amendoeiras, a cor e a época da floração, o vigor das raízes, as características organoléticas dos frutos. Selecionamos o melhor porta-enxerto, marcamos o compasso para a plantação, furamos as fragas para encontrar água e montamos a bomba solar para as regas dos primeiros anos das pequeninas amendoeiras. Sonhamos com o momento de plantar o Amendoal.

Começo a desvendar o porquê deste fascínio. As amendoeiras na sua frugalidade, no deslumbramento das suas singelas flores em pleno inverno, na sua resistente determinação, entregam-nos as sementes de uma grande riqueza. Beleza, simplicidade, força, que melhor legado para as gerações futuras?

Nota: Sobre o valor simbólico da amendoeira a partir da leitura Livro de Jeremias, nomeadamente o diálogo entre Deus e Jeremias, “Que vês Jeremias? /Vejo um ramo de amendoeira! (Jr 1,11)/Viste bem Jeremias, viste bem!(Jr 1,12)” remeto para as sábias palavras de D. António Couto que tem um livro publicado com o título “Vejo um ramo de amendoeira e outras palavras em flor” (Ed Paulus, 2011).
No meio dos espantosos sintomas de desagregação e destruição do povo existente na época desta formulação bíblica, explica o Bispo de Lamego: A amendoeira é das poucas árvores que floresce no inverno. Ao responder Vejo um ramo de amendoeira, Jeremias já levantou os olhos da invernia e da tempestade, da catástrofe e da morte que tinha pela frente e já os fixou lá longe na frágil-forte flor da esperança que a amendoeira representa. Deus manifesta a sua aprovação, dizendo: viste bem, Jeremias, viste bem. Bem diz-se em hebraico tôb, que significa também belo e bom. Jeremias vê portanto bem, belo e bom”.

Seriam porventura assim sábias as palavras de um outro Bispo de Lamego, franciscano, Frei Salvador Martins, muito próximo da Rainha Santa Isabel, seu confessor, que esteve presente nos seus últimos momentos de vida e acompanhou o seu cortejo fúnebre de Estremoz até Coimbra.



Teresa Gomes Mota
Lamego, Biblioteca Municipal, 12 de Abril de 2013
Reunião da SOPEAM- Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos